O Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha

Você deve estar se perguntando, mas o dia da consciência negra não é em novembro? Sim, mas hoje, no dia 25 de julho, é comemorado o dia de Tereza de Benguela e da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, uma outra História.

O Dia da Mulher Afro-latino-americana e Caribenha foi criado em 1992, decorrente do primeiro Encontro de Mulheres Afro-Latino-Americanas e Afro-Caribenhas, em Santo Domingo, na República Dominicana. Movimento que se transformou em um marco internacional da luta e da resistência da mulher negra.

No Brasil, em 2014, a ex-presidenta Dilma Rousseff sancionou a Lei nº 12.987/2014 como o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, instituindo-a no mesmo dia (25 de julho) da Mulher Afro-latino-americana e Caribenha. A proposta é a viabilização das lutas das mulheres negras e a mobilização de ações que fortaleçam e resgatem organizações e grupos de resistência.

E porque Tereza de Benguela?

Tereza de Benguela, que viveu durante o século 18, foi líder do Quilombo do Quariterê, no atual Estado de Mato Grosso. Seu nome foi ‘esquecido’ pelos historiadores nacionais e é somente devido ao Movimento Negro e às Mulheres Negras que temos sua história recuperada, pelo resgate de documentos. Uma história cada vez mais incorporada em nossos corpos.

Sob a liderança de Tereza, a comunidade, sobretudo, negra e indígena se reunia numa espécie de parlamento para votar as ações da comunidade. Assim, negros e indígenas resistiram à escravidão por duas décadas nos arredores de Vila Bela da Santíssima Trindade.

“Rainha Tereza”, como era chamada, uma negra que comandava a estrutura sócio-político-econômica de uma baita comunidade, que vivia do cultivo de algodão, banana, feijão, mandioca, milho, e da venda dos excedentes desses produtos. Uma das formas com que a comunidade se defendia era com os objetos de ferro, que os brancos utilizavam contra os negros. A comunidade transformava esses objetos de tortura em instrumentos de trabalho.

População negra no Brasil

De acordo com dados relativos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) quanto ao tamanho da população no Brasil, referente ao ano de 2020, somos mais de 211 milhões de habitantes. Em 2019, segundo Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua do IBGE, um percentual de 56,10% de pessoas se declararam negras no Brasil. Na época, dos 209,2 milhões de habitantes no Brasil, 19,2 milhões se assumiam como pretos, enquanto 89,7 milhões se declararam pardos. A categoria negra é conceituada pelo IBGE como a soma de pretos e pardos. Da população negra, aproximadamente a metade é composta por mulheres.

As lutas

Como você já pode ter percebido, o próprio esquecimento da história de alguém como Tereza diz respeito à luta antirracista. Recontar a nossa história é um dos intuitos de base da luta de mulheres negras. Com isso, alcançar um espaço de fala, inaugurando também um espaço de escuta, para multiplicar as narrativas dos nossos povos.

Ao se reconfigurar as estruturas de poder, identidades tidas como marginalizadas, como a das mulheres negras, pode-se reconfigurar a ideia de conhecimento, criando uma linguagem própria. Para vários homens brancos, Tereza era assunto a ser esquecido. Para as negras, não, Tereza é conhecimento. Tereza é possibilidade de descolonizarmos a nossa história, as nossas mentes, imaginações e os nossos corpos.

Quando Tereza está deliberadamente esquecida, ausente, essa hiância construída regula um discurso marginalizador, simbolizando uma posição subalterna da mulher negra perante os homens brancos, os quais criaram essa narrativa. Entretanto, como bem representa o dia 25 de julho, as vítimas do racismo e do colonialismo nunca foram ausentes, subalternas, submissas, silenciosas. Muito pelo contrário. Utiliza-se de toda a violência na tentativa de silenciá-las.

O racismo e o antirracismo

O racismo, prática colonialista, carregada de estereótipos e preconceitos, se manifesta das mais variadas formas no nosso país, seja de modo estrutural, cotidiano, ele se presentifica desde a época colonial e se mistura, se entrelaça com nossas histórias, criando narrativas. Nada de um racismo velado.

O racismo no Brasil é naturalizado pelo colonialismo e sua dissidência. Sua diferença com o preconceito é posta. O preconceito é a construção da diferença e sua associação com alguma hierarquia de valores, enquanto o racismo é o preconceito associado ao poder político, histórico, social e econômico.

Histórias de dor surgem do racismo. Histórias de políticas espaciais, visto que as relações de raça são rearticuladas entre o espaço, os negros são empurrados, pelos brancos, para os guetos de exclusão, para a pobreza. As políticas de cabelo – a indústria e os povos constantemente pregando que cabelo liso é bom, cabelo afro é ruim. São esses exemplos de práticas cotidianas racistas que permeiam a vida de milhares de pessoas vítimas dessa política de pele.

O racismo, além de tentar apagar a memória dos negros, cria todo um folclore perverso sobre a negritude, fazendo-os localizar sua história apenas pela margem, como é o caso do ‘contágio social’. Mito da branquitude para afastar os negros, fazendo surgir a segregação. Assim, o racismo também se traduz pela ausência de representatividade de mulheres negras e homens negros, tão afastados desses espaços públicos, mesmo que sendo metade da população de nosso país.

O racismo cria toda a forma de violência, cria o assassinato e o suicídio de corpos negros, como no imenso número de casos que temos todos os anos. Desse modo, a consciência sobre o racismo é, então, um processo físico e psicológico intenso que deve ser encarado e que exige força de trabalho para que possamos conseguir desmantelar essa prática.

Com isso, vê-se que o racismo é um fazer político branco que estrutura a sociedade, deixando cicatrizes em suas vítimas. Como ele é estrutural, não há como separá-lo da discriminação de classes e do sexismo, tão presentes em nosso país. Por isso é tão importante falar das mulheres negras, que estão submetidas às violências do mundo branco.

O sujeito negro, pelas práticas racistas impostas contra ele, torna-se o diferente, em relação ao sujeito branco. Este faz do sujeito negro o pertencedor da personificação de aspectos seus, os quais não deseja se a ver. É desse modo que o branco projeta sua fantasia no negro. É assim que a branquitude depende da exploração do outro para sobreviver. Branquitude esta que é construída por brancos, numa perspectiva relacional, colocando-se como diferente do outro, tentando por tudo ser melhor do que o outro. O outro é o homem negro e a mulher negra.

Se a norma branca, ao colocar a branquitude como referência, constroi a narrativa do negro como diferente, numa diferença articulada pelo estigma, pela inferioridade, ao hierarquizar valores, cria-se também um processo de naturalização, que não é nada natural. E como raça e gênero são inseparáveis, a mulher negra está em um lugar ainda mais marginalizado do que o homem negro. Ela está como o outro do outro, o diferente do diferente. As práticas racistas se baseiam em papel de gênero.

Raça, gênero e classe: a mulher negra

A mulher sempre foi associada, no mundo ocidental judaico-cristão, ao pecado, a Pandora com sua caixa de desgraças, à fragilidade – ideia que submete a mulher à dependência do homem. A mulher por si só já é marcada como um lugar da diferença em relação ao homem.

Mas as marcações às mulheres brancas são bem diferentes das atribuídas às mulheres negras. Em toda essa construção racista, a marcação se traduz pelo mito da mulher branca ser frágil, princesa, ou emancipada, enquanto a mulher negra é marcada como a grande mãe, forte, doméstica, disponível e exótica.

E foi, por entre essas questões, que o feminismo ganhou sua vertente negra, já que a realidade de mulheres brancas não abarca a negritude. A necessidade de viabilizar a luta dessas mulheres negras está extremamente ligada à sobrevivência, em níveis como, por exemplo, acesso à moradia, saúde e educação.

A maioria das mulheres negras são pobres, com baixa escolaridade e sem formalização de vínculo trabalhista. A mulher negra, em nossa sociedade, é colocada numa posição inferior ao homem negro. Como ele é homem, seu rendimento médio capital é superior ao dela. Enquanto isso, o homem negro ocupa posição inferior à mulher branca, qual, por sua vez, não se equivale ao homem branco.

E, assim, percebe-se que não são só raça e gênero que são questões inseparáveis, mas as questões de classe social também são cruciais para se compreender toda a problemática. Essas categorias estão fortemente atreladas e são inseparáveis. Desse modo, a mulher negra é colocada, pela branquitude, em um contexto de tripla exclusão. A diferente da diferente da diferente.

Os homens brancos de nossa história não deram nenhuma possibilidade de existir aos negros nem antes, nem durante, nem após a abolição da escravização. Muito pelo contrário, faziam de tudo para exterminar a negritude. E toda essa prática foi adotada por nossa sociedade, ainda muito colonial. Mas existem Terezas de Benguelas!

É por isso que esse dia é tão importante, um dia de resistência e luta contra uma estrutura opressora. Um dia que diz do reconhecimento de mulheres negras, de nossa história. É preciso muito, ainda, para nos emanciparmos do pensamento escravocrata que não deixa de insistir.

Sugestões de Livros de Autoras Negras:

Audre Lorde – Irmã Outsider

Sinopse: Neste livro, Lorde nos convida a enfrentar nossos medos e a quebrar silêncios. E examina uma ampla gama de tópicos, incluindo amor, guerra, imperialismo, brutalidade policial, construção de coalizão, violência contra as mulheres, feminismo negro e movimentos pela igualdade.

Bianca Santana – Quando me descobri negra

 Sinopse: Por meio de contos, Bianca apresenta relatos sobre a sua experiência em meio à sociedade. Com essas narrativas curtas, traça um panorama fascinante sobre o que é ser negra em nosso país.

Buchi Emecheta – Cidadã de segunda classe

Sinopse: Na Nigéria dos anos 60, Adah precisa lutar contra todo tipo de opressão cultural que recai sobre as mulheres. Nesse cenário, a estratégia para conquistar uma vida mais independente para si e seus filhos é a imigração para Londres. O que ela não esperava era encontrar, em um país visto por muitos nigerianos como uma espécie de terra prometida, novos obstáculos tão desafiadores quanto os da terra natal. Além do racismo e da xenofobia que Adah até então não sabia existir, ela se depara com uma recepção nada acolhedora de seus próprios compatriotas, enfrenta a dominação do marido e a violência doméstica e aprende que, dos cidadãos de segunda classe, espera-se apenas submissão.

Carolina Maria de Jesus – Quarto de despejo – “Diário de uma favelada”

Sinopse: O diário da catadora de papel Carolina Maria de Jesus deu origem à este livro, que relata o cotidiano triste e cruel da vida na favela. A linguagem simples, mas contundente, comove o leitor pelo realismo e pelo olhar sensível na hora de contar o que viu, viveu e sentiu nos anos em que morou na comunidade do Canindé, em São Paulo, com três filhos.

Chimamanda Ngozi Adichie – Hibisco Roxo

Sinopse: Protagonista e narradora de Hibisco roxo, a adolescente Kambili mostra como a religiosidade extremamente “branca” e católica de seu pai, Eugene, famoso industrial nigeriano, inferniza e destrói lentamente a vida de toda a família.

Conceição Evaristo – Olhos D´água

 Sinopse: Em “Olhos D’água” Conceição Evaristo constrói uma série de narrativas, composta por 15 diferentes contos, que se entrelaçam ao relatarem a história de mulheres e homens negros que sofreram e sofrem os mais diferentes tipos de violência e depreciação na sociedade.

Grada Kilomba – Memórias da plantação

Sinopse: Memórias da Plantação é uma compilação de episódios cotidianos de racismo, escritos sob a forma de pequenas histórias psicanalíticas. Das políticas de espaço e exclusão às políticas do corpo e do cabelo, passando pelos insultos raciais, Grada Kilomba desmonta, de modo incisivo, a normalidade do racismo, expondo a violência e o trauma de se ser colocada/o como Outra/o.

Categorias: Diversos

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