Realidade, utopia e urbanidade*

Olhando para a história das Cidades, pode-se considerar que o Cinema é de fato a caçula das Belas Artes, vindo bem depois da Arquitetura, por exemplo. O aparecimento do Cinema, no final do século XIX, já traria consigo uma intrínseca relação com as Cidades. Desde que nasceu, o Cinema foi quase sempre, de modo essencial, uma forma de entretenimento urbana.

Assim, os espaços internos e externos e os lugares retratados nos filmes têm significados. São eles, então, responsáveis por crenças e valores, em sua maioria, com vínculos em estruturas de dominação cultural, política e econômica.

O espectador mirando a tela de Cinema, com sua retina, nem imagina o movimentos da lente da câmera. Desde as suas origens, a tela, agora ampliada nos chamados “cinema portátil” ou “mídia digital”, expõe imagens das Cidades com significados por vezes contraditórios.

A paisagem e a vida das pessoas fazem parte deste cenário de dicotomias: utopias x distopias; passado x futuro; ficção x não ficção; visão pessimista x otimista. A Cidade é o campo de experimentação, da crítica e o lugar para imaginar outras possibilidades.

As Cidades no Cinema

O Cinema fala de todas as Cidades. Das Cidades utópicas do futuro, como Los Angeles, em Blade Runner. Das Cidades que sofreram desastres como Nova York em “World Trade Center”. E mais recente com as “Cidades fictícias” de “Parasita”, filmada em Seul e Jeonju e “Bacurau” filmada em Barra, Rio Grande do Norte. O Cinema é uma de nossas artes que mais consegue retratar a realidade e, ao mesmo tempo, construir utopias.

Desse modo, ao navegar pelas Cidades o Cinema fala de urbanidades. Urbanidade é o que liga a paisagem urbana às pessoas, ou seja, aquilo que se refere à cortesia entre os espaços das Cidades e o Cidadão. O Cinema faz o zoom destes ambientes não humanos como edifícios, viadutos, ruas e praças; e colabora para dotá-los de gentileza com o corpo e a vida. Nossos bairros deveriam ser modelos de civilidade e de cordialidade. O Cinema acompanhou a tecnologia. Este avanço seria uma vantagem para maior urbanidade nas Cidades?

Se ontem, a Sétima Arte ficava restrita às salas de exibição, hoje ela tem circulação bem mais livre. O Cinema invade residências em todo o mundo, não só pela televisão, mas por brinquedos, roupas, trilhas sonoras, videogames e vários outros artefatos. Sua penetração na sociedade, se não é mais forte, é, então, mais evidente e mais abrangente.

Construção de cenários

O Cinema está mais rápido e de fácil alcance nos diversos meios do audiovisual. Desse modo, ele se faz presente nos equipamentos de telefone móvel e até nas redes sociais. Mas, como o futuro do Cinema poderia aproximar mais as pessoas nas Cidades?

Filmes e Cidades têm lugares onde acontecem vida, portanto, convivência. E, desse modo, é por meio da vida em comum que emanam representações e que se configuram sentimentos dos mais variados. Viver na Cidade implica em diversos cenários, de realidade e de utopia.

Desse modo, ao celebrarmos, no mês de junho, mais especificamente no dia 19, o Dia Nacional do Cinema Brasileiro, várias perguntas se formam, como, que Cidade queremos? Quais paisagens vemos? Que espaço temos? Que urbanidade construímos?

* Ricardo Ramos Alves é arquiteto e urbanista. Coordenador de Curso de Extensão na Faculdade SENSU.

Categorias: Diversos

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