por Ricardo Ramos Alves*

Hoje é aniversário de Goiânia. A capital completa 87 anos com dados, no mínimo, contraditórios e antagônicos, especialmente, no que se refere ao “Direito à Cidade”. Conceito ou termo muito utilizado pelos arquitetos, urbanistas e por participantes de movimentos sociais, que relacionam direitos e garantias às pessoas em função de seus espaços urbanos. Sociólogo e filósofo, Henri Lefebvre (1968) trouxe com seu livro de mesmo tema, as discussões que perduram sobre a urbanização das cidades e suas consequências na qualidade de vida das pessoas.

Símbolo do novo paradigma da “marcha para o oeste”, na década de 30, a primeira capital moderna do País foi construída longe das principais cidades e fora do litoral brasileiro. Este pioneirismo e progresso arregimentando pessoas para o Centro-Oeste não contracenaria bem com o abismo entre ricos e pobres que Goiânia se tornou.  

Não superado os traços dos períodos anteriores, marcados pelo colonialismo, império e pela primeira república elitista, Goiás e o município acabaram reproduzindo a concentração de terra, renda e poder. Sendo assim, responsáveis por uma contínua aplicação enviesada das leis que refletiram na vida da cidade e na segregação do território urbano.

Um dos dados mais respeitados no mundo, o Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-Habitat), revelou, em 2012, que Goiânia é a cidade mais desigual da América Latina. Na contra mão destes dados, Goiânia foi considerada a cidade mais arborizada do Brasil, permanecendo em 1º lugar, segundo o censo de 2010, elaborado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A capital continua sendo a primeira entre as cidades acima de um milhão de habitantes no Brasil com mais árvores, e a segunda mais arborizada do mundo, perdendo apenas para Edmonton, no Canadá. Segundo este mesmo censo demográfico, a cidade possuí 89,5% de arborização. E recebeu em 2009, o título de Capital Verde do Brasil em que chegou a ser considerada como a melhor cidade em qualidade de vida dos brasileiros, pelo Instituto Brasil Américas.

Como analisar Goiânia sobre a ótica destes dois parâmetros aparentemente contraditórios?

Pode-se evocar um certo otimismo ao analisar os dados do IBGE-PNAD, 2018 que revelam um avanço no índice GINI, que mede a desigualdade de renda, pois está agora com 0,48 em contrapartida ao valor de 0,61 na pesquisa citada da ONU-Habitat, 2012.

Mas, por outro lado, vê-se resultados piores, apurados também em 2018, em quatro áreas essenciais – saúde, educação, segurança e saneamento e sustentabilidade. De acordo com a 3ª edição do estudo Desafios da Gestão Municipal (DGM), da consultoria Macroplan, Goiânia caiu seis posições desde o último levantamento, em 2006. A capital está na 42ª colocação, quando naquele ano ocupava a 36ª posição.

Nesta gangorra de sobe e desce dos números fica a certeza de que o caminho para o “Direito à Cidade” ainda é longo. E que uma capital com mais de um milhão e meio de habitantes deve se preocupar com o seu crescimento e, sobretudo, com os valores gerados pelo investimento público que deveriam trazer mais benefícios à população. Seja para diminuir as desigualdades ou plantar mais árvores, o parâmetro desejável para o desenvolvimento de Goiânia precisa ser o interesse coletivo.

* Ricardo Ramos Alves, é arquiteto e urbanista, professor universitário, especialista em Planejamento Urbano e Ambiental (UEG-GO) e mestre em Desenvolvimento e Planejamento Territorial (PUC-GO)

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